domingo, 19 de dezembro de 2010

Ainda guardo renitente um velho cravo para mim...

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

(1975 - Tanto Mar - Chico Buarque - Letra original, escrita no tempo presente, vetada pela censura, gravação editada apenas em Portugal)
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Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

(1978 - Segunda versão, escrita no tempo passado)
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Tanto Mar figura uma carta escrita por um português no Brasil para um amigo português em Portugal. Ambos os países sob o regime ditatorial.

Em 25 de Abril de 1974, o regime português foi derrubado por uma revolução popular que ficou conhecida como Revolução dos Cravos. Há várias histórias para o uso do cravo como símbolo da revolução. Umas delas é que, ao amanhecer, uma florista levava cravos para decorar um hotel quando foi surpreendida por um soldado, solidário à revolução, que colocou um de seus cravos na ponta da espingarda, e em seguida todos os outros fizeram o mesmo.

Por isso, na letra, Chico fala da primavera, dos cravos, lá, em Portugal
(sei que estás em festa, pá, fico contente). Porém cá, no Brasil, ele está doente pela ditadura ainda latente.

Na segunda versão da letra, 1978, há uma mágoa referência ao término da Revolução, visto que em 25 de novembro de 1975, um golpe militar pôs fim ao Processo Revolucionário em Curso:
já murcharam tua festa, pá. Mas não com o ânimo revolucionário: mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.

Para quem não sabe: A expressão "pá" no final das frases, é uma corruptela de "rapaz", em Portugal.

(fontes: Othon César / www.chicobuarque.com.br)

Liberdade artística violada pela Vara de Família de São Paulo

Elaine César, perde guarda do filho por trabalhar no Teatro Oficina, classificado como “pornográfico”

Uma carta de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, notável criador do Teatro Oficina e artista premiado nacionalmente e internacionalmente, denuncia que a diretora de vídeo do grupo, Elaine César, perdeu a guarda do filho, acusada de participar de um “teatro pornográfico”.

Uma fonte afirmou que o ato foi tão violento que ela foi parar na UTI, a poucos dias da estreia da peça, em São Paulo, "Dionisíacas 2010 Sampã" - festival que reúne quatro peças do Oficina, de sexta-feira (17) a segunda-feira (20).

“Casos violentos como este só se comparam à censura durante o regime militar e mostram que os juízes e os procedimentos das Varas de Infância são da idade média”, afirmou a fonte.

José Celso Martinez denuncia, em um dos trechos: “Porque um ex-marido ciumento, totalmente perturbado, teve acolhidos por autoridades da Vara da Família, para esta praticar uma ação absolutamente anti-democrática, para não dizer nazista, todos seus pedidos mais absurdos de ex-marido ególatra, doente, de arrancar o filho do convívio da mãe, acusando Elaine de trabalhar num “teatro pornográfico” e para lá levar o filho: o Teatro Oficina. Fez oficiais de justiça sequestrarem os HD’s deste Teatro, com um texto de uma obscenidade rara, para procurar cenas de pedofilia e práticas obscenas que Elaine e seu atual marido, o ator Fred Stefen, do Teatro Oficina, teriam cometido com o filho de Elaine, o menino Theo.”

Leia no link abaixo, dedicatória a Elaine, carta do autor e cartas de Zé Celso ao desembargador responsável pelo caso:

http://www.consciencia.net/agencia/mulher-perde-guarda-do-filho-por-trabalhar-no-teatro-oficina-classificado-como-pornografico/

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Governo lança CD-ROM com memória da resistência à ditadura militar brasileira

Oito mil escolas públicas de ensino médio de todo o país irão receber do governo federal um CD-ROM com a história de 394 mortos e desaparecidos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). O trabalho, feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio do Ministério da Educação (MEC) e sob a encomenda da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, foi apresentado dia 10 de dezembro em Brasília.

O CD-ROM foi elaborado a partir dos arquivos do projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH e outros documentos. Além da biografia dos perseguidos políticos, o CD vai permitir aos professores e estudantes conhecer o contexto histórico e cultural do período com acesso à cerca de 4 mil fotografias e ilustrações, 300 vídeos e mais 300 canções que fizeram parte dos protestos e da resistência à ditadura.

“Essa juventude hoje não conhece os anos difíceis que o país passou”, disse o ministro da Educação, Fernando Haddad, no lançamento. Segundo ele, o CD-ROM “será festejado como um instrumento de transformação”. Para Haddad, há um efeito pedagógico e cívico na iniciativa. “Democracia se apropria com a cultura. Não é nata do ser humano”, disse ao enfatizar que os valores democráticos precisam ser ensinados.

O ministro Paulo Vannuchi enfatizou que o CD ROM é uma experiência “absolutamente pioneira” em projetos de memória. “Não lembro de ter ouvido falar em outro país”, disse. SDH e MEC também são parceiros na elaboração das diretrizes curriculares nacionais para direitos humanos.

O CD-ROM deverá virar um site a ser desenvolvido pela UFMG. O trabalho foi coordenado pela professora Heloisa Maria Murgel Starling do departamento de história da UFMG e contou com a participação de 15 estudantes de várias áreas, entre elas, história, direito e comunicação.

Para a professora, o projeto é uma “batalha ganha” na recuperação da memória da época da ditadura. “Ao abordar a cultura, o CD-ROM traz uma dimensão de esperança e dimensão lúdica. O conhecimento da história se dá não apenas pela fase dura e dramática, mas também pela enorme criatividade que existia no período.”

sábado, 11 de dezembro de 2010

Arlequins agradece !!!

Agradecemos a todos que nos deram força para a realização do ensaio aberto de fragmentos da peça Os Filhos da Dita que apresentamos hoje no Memorial da Resistência de São Paulo. Aos que lá foram nos assistir, nosso imenso carinho e nossos aplausos.
Evoé !!!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

OS DESAPARECIDOS - poema de Affonso Romano de Sant’anna



De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.

Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluiam
- mal ligavam o tôrno do dia.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.

Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
- desapareciam.

Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria
que carros de fogo arrebatavam os mais puros
em mística euforia. Não era. É ironia.
E os que estavam perto, em pânico, fingiam
que não viam. Se abstraíam.
Continuavam seu baralho a conversar demências
com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo
com suas roupas e dentes.

Em toda família à mesa havia
uma cadeira vazia, a qual se dirigiam.
Servia-se comida fria ao extinguido parente
e isto alimentava ficções
- nas salas e mentes
enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam
- na sopa do presidente.

As flores olhando a cena, não compreendiam.
Indagavam dos pássaros, que emudeciam.
As janelas das casas, mal podiam crer
- no que viam.
As pedras, no entanto,
gravavam os nomes dos fantasmas
pois sabiam que quando chegasse a hora
por serem pedras, falariam.

O desaparecido é como um rio:
- se tem nascente, tem foz.
Se teve corpo, tem ou terá voz.
Não há verme que em sua fome
roa totalmente um nome. O nome
habita as vísceras da fera
Como a vítima corrói o algoz.

E surgiam sinais precisos
de que os desaparecidos, cansados
de desaparecerem vivos
iam aparecer mesmo mortos
florescendo com seus corpos
a primavera de ossos.

Brotavam troncos de árvores,
rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam
vestígios dos que sumiam.

Os desaparecidos, enfim,
amadureciam sua morte.

Desponta um dia uma tíbia
na crosta fria dos dias
e no subsolo da história
- coberto por duras botas,
faz-se amarga arqueologia.

A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.

Não há cova funda
que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.

Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.


Affonso Romano de Sant'anna 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Arlequins apresenta no Sábado Resistente: evento lembra o AI-5 e homenageia Bacuri

Revelações sobre a vida do comandante Bacuri mostram toda a fibra de um dos mais fortes e decididos resistentes.

Peça de teatro mostra toda a barbárie do Ato Institucional n°5 - o AI-5, sobre nosso país.

O país não foi o mesmo depois da edição do Ato Institucional n° 5, que oficializou e escancarou a ditadura em nosso país. Civis passaram a ser julgados por tribunais de militares e a pena de morte passou a existir em tempos de paz. Não oficialmente, pois eles não tiveram a coragem de executar ninguém dentro de suas leis fascistas. Mas, na prática ela existia e atuava sem nenhum freio. Os órgãos de repressão e tortura assassinaram muitas pessoas.

Eduardo Collen Leite, o Comandante Bacuri, passou 106 dias nas mãos dos torturadores mais tenebrosos e nada informou para os carrascos. Nem mesmo seu nome ele confirmou.

O Sábado Resistente de dezembro homenageia esse herói brasileiro, que ousou desafiar a ditadura e não cedeu aos torturadores, protegeu seus companheiros e mostrou uma fibra nunca vista naqueles duros tempos de repressão política e de mortes de brasileiros e brasileiras.

PROGRAMAÇÃO

14h00 – Boas-Vindas
Kátia Felipini (Museóloga – coordenadora do Memorial da Resistência de São Paulo)
Coordenação – Ivan Seixas (Núcleo de Preservação da Memória Política do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos/SP)

14h15 – Homenagem ao Comandante Bacuri
Palestra com a jornalista Vanessa Gonçalves com revelações surpreendentes sobre a vida de Eduardo Leite

15h30 – Apresentação de fragmentos da peça "Os Filhos da Dita"
Grupo Teatral Arlequins (Direção: Sérgio Santiago - Elenco: Ana Maria Quintal e Camila Scudeler)

15h30 – Debate com a jornalista Vanessa Gonçalves e elenco da peça "Os Filhos da Dita"


SÁBADO RESISTENTE

Os "Sábados Resistentes", promovido pelo Núcleo de Preservação da Memória Política e pelo Memorial da Resistência de São Paulo, é um espaço de discussão entre militantes das causas libertárias, de ontem e de hoje, pesquisadores, estudantes e todos os interessados no debate sobre as lutas contra a repressão, em especial à resistência ao regime civil-militar implantado com o golpe de Estado de 1964.
Os "Sábados Resistentes" tem como objetivo maior o aprofundamento dos conceitos de liberdade, igualdade e democracia, fundamentais ao ser humano.


Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66 – Luz – Auditório Vitae – 5º andar
11 de dezembro, das 14h às 17h30

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Câmara de São Paulo homenageia Eduardo Collen Leite, o "Bacuri"

ENTREGA POS-MORTEM DA MEDALHA ANCHIETA COM GRATIDÃO DA POPULAÇÃO DE SÃO PAULO AO “BACURI”.

“Nosso comandante, mártir e herói chamava-se Eduardo Collen Leite e passou por um tormento de 106 dias seguidos de torturas atrozes nas mãos do Esquadrão da Morte e do DOI-CODI/São Paulo até ser assassinado em 7 de dezembro de 1970. Durante esse período não forneceu aos inimigos sequer seu nome ou seu endereço. Tentamos por todos os meios resgatá-lo das mãos dos criminosos, mas não conseguimos.Tentamos capturar o comandante do II Exército para trocar um por um, mas também não conseguimos. Nossas tentativas fracassaram por vários motivos, inclusive pela ação de infiltrados que nos sabotaram. Foi anunciada sua fuga quando da morte do comandante Toledo. Ele foi escondido num quartel no Guarujá. Ficou como refém do inimigo. Quando houve a captura do embaixador suiço, o tiraram do quartel de madrugada e o mataram covardemente".

Vamos homenagear esse grande brasileiro, que morreu jovem e serviu de exemplo para todos nós que lutamos contra a ditadura.

Local: Câmara dos vereadores de São Paulo
Data: 07 de dezembro
Horário: 19h

(Ivan Seixas - Fórum dos ex-presos políticos)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O que tem por trás de certas afirmações?

Sempre que o assunto é "crime organizado", visto o que está acontecendo no Rio de Janeiro de hoje e o que aconteceu em São Paulo no dia das mães de 2006, a mídia cria uma dinâmica do medo a partir de absurdos sociológicos como o de afirmar que o “crime organizado” atual surgiu do encontro entre presos comuns e presos políticos pela ditadura nos anos 70, tentando vincular militantes de esquerda a traficantes de drogas, e separar a população em esquemas tipos “eles-nós”.
Porque essa necessidade em refletir a responsabilidade da existência do "crime organizado" aos presos políticos pela ditadura militar brasileira?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Copa de 1970 e a máquina de propaganda do regime militar

Há quatro décadas a seleção brasileira conquistava o tri-campeonato de futebol mundial, no México. Sendo a primeira a almejar o título três vezes, desde que o campeonato fora estabelecido em 1930, tendo o direito de trazer para o solo brasileiro a taça Jules Rimet.

A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Ao arrematar em apoteose a taça, tomou para si o estigma de um feito heróico, num espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda do regime militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como o foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente de então, General Emílio Garrastazu Médici.

1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e do próprio regime militar implantado em 1964. No ano anterior as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país, o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick pela esquerda oposicionista, revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país. O ano da copa começou com outro sequestro da esquerda, a do cônsul do Japão Nobuo Okuchi. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros. A finalidade era caçar a todos e eliminar, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.

Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a copa, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Feitas as arestas ideológicas, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco luxuoso, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo.

Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país "próspero e feliz". Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da copa ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!”.

A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores. Comparado a história contemporânea, o uso da imagem da seleção brasileira do tri-campeonato só perdeu para a propaganda do regime nazista, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Escrito por Jeocaz Lee-Meddi
texto na íntegra no site:
http://jeocaz.wordpress.com/2010/06/07/copa-de-1970-e-a-ditadura-militar/

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Censura e Cinema no Brasil da ditadura

Quando em 1990 os arquivos da censura foram abertos, além do bafo amargo de um período de menosprezo as criações artísticas, a livre manifestação, a informação e principalmente aos sonhos e a vida, exalou também que a censura era muito bem estruturada e cumpria função estratégica no regime militar. Os censores eram preparados para interpretar mensagens políticas, participavam de cursos onde examinavam criteriosamente filmes de cineastas tidos como subversivos, como Godard, Truffaut, Pasolini e Antonioni, alguns até estudaram cinema em universidades para não deixar escapar nenhuma técnica velada que identificasse subversão.

Antes do golpe de 1964 a censura já existia, mas limitava-se a classificar os filmes por faixa etária. Depois do golpe ela é moldada a servir aos interesses do regime com uma atuação moralista, cortando palavrões, cenas libidinosas, exposição do corpo. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, por exemplo, foi proibido para menores de 18 anos, mas não sofreu cortes, no parecer do censor não há qualquer alusão a mensagens políticas no filme.

De 1967 a 1968 ocorre a militarização da censura, que com o decreto AI-5 se torna totalmente ostensiva e implacável, com atuação de censores da alta patente, generais e coronéis com seus olhares totalmente fincados na preservação do estado repressor, onde qualquer manifestação contrária representava um atentado à segurança nacional. O AI-5 institui uma censura mais ferrenha nas artes, principalmente no cinema, cerceando a liberdade de expressão e criação artística dos cineastas. A proibição de filmes se torna prática comum.

Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, foi proibido em todo território nacional por ser considerado subversivo e irreverente, a censora que o avaliou fez um relatório político e contundente onde destaca a frase que considera ameaça ao estado: A praça é do povo e o céu é do condor.

Macunaíma (1969), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, baseado na obra de Mário de Andrade, também foi proibido, o censor identifica na roupa de uma personagem o símbolo da Aliança para o Progresso - organização voltada para a América Latina criada pelo presidente americano John Kennedy e contestada pelo regime militar - e manda apagar a cena.

Nesse universo de censores preparados para matar qualquer ideia que julgassem impertinente ao estado repressor que eles representavam, tudo era julgado e muita criação condenada. Em 1972, o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, foi assombrado não apenas com a proibição, mas com a explosão irada de sua censora que declarou em sua justificativa pela não liberação do filme À meia-noite encarnarei em teu cadáver: "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à Sétima Arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente filme".

Na abertura política iniciada em 1975, a censura toma novos rumos. Filmes que antes seriam esfacelados começam a ser liberados sem ou com poucos cortes para o cinema. O alvo passou a ser outro: a TV. Eles perceberam que o público do cinema era restrito e que o controle precisava ser feito sobre a televisão, que chegava a todos os lugares e a todas as pessoas. Um caso exemplar é o de Pixote, rodado em 1980, por Hector Babenco e só liberado para a TV cinco anos depois, com 38 cenas censuradas.

Como disse o crítico francês Georges Sadoul: “Façam seus filmes, como for possível. Não parem. Porque um dia isso vai passar, e nesse dia seus filmes estarão lá, para contar essa história”.

Vale lembrar que os cortes eram feitos nas cópias. Com os originais preservados, a partir de 1988, com o fim da censura, os filmes puderam ser exibidos em sua íntegra e desfrutarem da apreciação do público, que é quem tem por direito gostar ou não de uma criação artística.

El Justicero (1963), de Nelson Pereira dos Santos, é um caso raro de filme que teve até os negativos confiscados. Por anos, o cineasta deu El Justicero como perdido, até que soube que havia uma cópia em 16 mm na Itália, para onde tinha sido levada pelo cineasta David Neves.

A censura foi uma das mais poderosas armas de sustentação da ditadura militar brasileira. Competente e incisiva fez valer a vontade do regime militar. Calou, frustrou, destruiu impiedosamente caminhos almejados de muita gente e com isso controlou o público do que ele poderia ter ou não acesso.

"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em um cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema".
Antonio Cícero


Fontes: Leonor Souza Pinto e Denise Assis

sábado, 13 de novembro de 2010

DAN MITRIONE, o mestre da tortura

Pouquíssimas pessoas sabem quem foi Dan Mitrione, homenageado com o nome de uma rua em Belo Horizonte no início dos anos 1970. A homenagem, sabe-se agora, fez parte de um plano para mascarar a biografia do torturador ítalo-americano que a ditadura militar trouxe, num convênio com a CIA, para ministrar aulas de tortura aos policiais brasileiros. E ele veio justamente para a capital mineira. Os espancamentos de presos políticos, que já eram a prática com os presos comuns (e continuam), passaram à condição de “método científico” com a chegada do “mestre”. As aulas não eram somente sobre a contradição entre corpo e espírito, entre fidelidade e resistência, entre caráter e covardia. As aulas eram práticas. Mendigos e presos comuns eram seviciados em salas de aulas para mostrar aos alunos os pontos mais vulneráveis do corpo, as técnicas mais eficientes, os instrumentos mais adequados, o limite depois do qual o risco de matar o preso era iminente.

Estes tempos tristes estão sendo esquecidos e o hediondo crime de tortura, embora imprescritível e inafiançável, pode ser anistiado desde que o STF assim o entenda. As coligações políticas entre defensores da tortura (e até torturadores remanescentes) e antigos lutadores pela liberdade e pela justiça começam a ficar comuns para a conquista ou manutenção do poder. Esta volúpia pelo poder, que despreza a ética e os princípios, terá como primeira vítima a liberdade. Sempre foi assim em todas as autocracias. Quando nos esquecemos dos horrores da ditadura, quando eles vão ficando mais distantes no tempo é que o pêndulo começa a se movimentar na direção do autoritarismo. A experiência dos que sofreram é confundida com atraso em um mundo que caminha cada vez mais rapidamente em direção a uma “pós modernidade”, depois da qual pode restar apenas um planeta morto. Os que foram vítimas dos ensinamentos de Dan Mitrione, aqui e no Uruguai, sabem que liberdade (“essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” Cecília Meireles) é mais importante que o consumismo, o resultado de bolsas de valores, a cotação de moedas estrangeiras, o humor do mercado.

Dan Mitrione foi ensinar tortura no Uruguai. Os Tupamaros o prenderam para trocá-lo por presos políticos da ditadura de lá. Ante a recusa dos militares uruguaios, foi justiçado. O nome de rua em Belo Horizonte foi a pedido dos americanos que queriam transformar o torturador em herói. Não conseguiram.

Em 1983, por iniciativa de Artur Viana e Helena Greco, vereadores na época, o nome da rua foi mudado para José Carlos Mata-Machado, jovem lutador pela liberdade, assassinado sob tortura (talvez com as técnicas ensinadas por Mitrione) nos porões da ditadura em Pernambuco. Era filho do inesquecível Prof. Edgar Mata-Machado. Belo Horizonte foi redimida e ficou mais limpa. A inauguração da nova placa foi uma festa. Eu estava lá. E não me esqueço.

Texto de Antônio de Faria Lopes, postado no site de Fernando Massote
http://massote.pro.br/2010/06/dan-mitrione-antonio-de-faria-lopes/

Fernando Massote iniciou os seus estudos de filosofia e política na Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e os terminou, com o curso de doutorado, na Universidade de Urbino (Itália). É professor aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG e autor do livro “História pela Metade – Cenários de Política Contemporânea”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Produzindo Esquecimento: histórias negadas

de Cecília Maria Bouças Coimbra

"Tornar-se senhores da memória e do
esquecimento é uma das grandes preocupações
das classes, dos grupos, dos indivíduos que
dominaram e dominam as sociedades".
Ana Paula Goulart Ribeiro


Alguns Dispositivos na Produção do Esquecimento

1. História e Mídia

…o processo de estruturação da memória coletiva é um dos mais sensíveis às disputas e aos confrontos dos diferentes grupos sociais. Como já assinalamos, a "história oficial" tem selecionado e ordenado os fatos segundo alguns critérios e interesses construindo, assim, "zonas de sombras, silêncios, esquecimentos, repressões".
Todo e qualquer acontecimento que hoje não se faça presente nos mass-media não existiu, não aconteceu, está fora da memória histórica que está sendo registrada e guardada pelos diferentes equipamentos sociais. Não está sendo relegado somente ao esquecimento; o que é pior, passa a não existir.
"Toda propaganda deve ser tão popular e ter nível intelectual que até mesmo o mais ignorante daqueles para a qual ela é dirigida possa entendê-la. Pode-se fazer com que as pessoas percebam o paraíso como inferno e, no sentido oposto, que considerem a forma mais vil de vida como o paraíso". (palavras de Adolf Hitler)

2. As Mortes Por "Acidente"

Uma "outra" história que também tem sido contada, narrada e registrada refere-se às mortes dos opositores políticos. De um modo geral, as versões oficiais da ditadura militar brasileira para os assassinatos perpetrados diziam respeito às mortes por resistência à prisão, por atropelamento ou por suicídio. Assim, oficialmente todos os militantes políticos assassinados foram efetivamente mortos "acidentalmente". Para coroar esse processo de negação histórica, a ditadura contou com o apoio técnico de vários médicos legistas que respaldaram com seus laudos as versões oficiais da repressão. Nesses documentos oficiais as causa-mortis foram registradas como reação à prisão, atropelamento, ou suicídio, pois em nenhum momento foram descritas as marcas de torturas presentes nos corpos desses opositores políticos.

3. A Figura do Desaparecido Político

O desaparecimento de pessoas ocultação de seus restos mortais e circunstâncias em que se deram suas mortes tem se caracterizado por ser uma das mais perversas práticas de tortura sobre seus familiares e amigos, pois para a "história oficial" essas pessoas estão vivas e para as autoridades são "foragidas" da justiça. Ou seja, apesar de terem sido seqüestradas, torturadas e assassinadas pelos órgãos de repressão, as autoridades governamentais jamais assumiram suas prisões ou mortes oficialmente.
Em uma sociedade com desaparecidos, com práticas sistemáticas de extermínio e violação dos mais elementares direitos estão presentes não somente os danos causados diretamente aos atingidos e aos seus familiares. Também estão sendo produzidas cotidianamente práticas de conivência, cumplicidade, submissão, medo, omissão, autocensura e, principalmente, esquecimento.
Ao mesmo tempo em que institucionalizava a tortura e a figura do desaparecido político no Brasil e na América Latina, alastrava-se e naturalizava-se a categoria de "indigente" (No Brasil o termo "indigente" refere-se àqueles que, por não serem identificados e reclamados por suas famílias, são enterrados em covas rasas como "desconhecidos".) No Brasil, esta categoria passou a ser produzida não somente por meio dos órgãos de repressão política, mas também, pela atuação dos chamados Esquadrões da Morte. Estes, nos anos 50 e, principalmente, após o golpe militar de 64 e no início da década de 70, no Rio de Janeiro e em São Paulo, fortaleceram-se como instrumentos para "diminuir" os índices de criminalidade entre as populações marginalizadas das periferias das grandes cidades.
A produção da instituição "indigência" que, dentre outras coisas, tem massacrado a cidadania, retirando a identidade dos opositores políticos ou não, está comprovada pelos números de ossadas encontradas nas pesquisas realizadas por diferentes entidades de direitos humanos no Brasil.

"falar a esse respeito forçar a rede de informação institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, denunciar o alvo é a primeira inversão de poder, é um primeiro passo para outras lutas contra o poder" (Foucault, M. e Deleuze, G. - "Os Intelectuais e o Poder")


Leiam o texto na íntegra em: http://www.slab.uff.br/textos/texto65.pdf

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

TORTURA, POR QUE NÃO? Maria Rita Kehl

Um texto pertinente, contundente e, pasmem senhores, a autora foi demitida esta semana do jornal onde trabalhava por cometer um "delito" de opinião com outro artigo, não deixem de ler. O post está no link: http://blogln.ning.com/profiles/blogs/tortura-por-que-nao-maria


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Elis Regina canta Menino



Música de Milton Nascimento em homenagem ao estudante Edson Luís assassinado em 1968 no restaurante Calabouço.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Arlequins convida a todos para as "SEGUNDAS OPINIÕES"


ARLEQUINS convida a todos para as "SEGUNDAS OPINIÕES" - uma série de encontros marcados para discutir a ditadura militar brasileira e seus desdobramentos.

20 de setembro (segunda-feira) às 20h: Paulo Arantes
27 de setembro (segunda-feira) às 20h: Iná Camargo Costa e Ana Martins
04 de outubro (segunda-feira) às 20h: Ivan Seixas

Local:

Espaço Pyndorama
Rua Turiassú, 481 - Perdizes (Próximo ao metrô Barra Funda)
Estacionamento no local: R$ 8,00
Reservas e informações: 11 3871-0373
contato@pyndorama.com

sábado, 14 de agosto de 2010

O PLENO E O VAZIO


Sei que este espaço é de interesse coletivo, e me perdoem por essa dor que é minha, mas hoje eu estou muito, muito triste, perdi uma grande amiga e companheira, e o mundo certamente ficou pior, muito pior. Clayre pra você:

O PLENO E O VAZIO
Carlos Drummond de Andrade

Oh se me lembro e quanto.
E se não me lembrasse?
Outra seria minh'alma,
bem diversa minha face.

Oh como esqueço e quanto.
E se não esquecesse?
Seria homem-espanto,
ambulando sem cabeça.

Oh como esqueço e lembro,
como lembro e esqueço
em correntezas iguais
e simultâneos enlaces.
Mas como posso, no fim,
recompor os meus disfarces?

Que caixa esquisita guarda
em mim sua névoa e cinza,
seu patrimônio de chamas,
enquanto a vida confere
seu limite, e cada hora
é uma hora devida
no balanço da memória
que chora e que ri, partida?


terça-feira, 20 de julho de 2010

LUA

Hoje, 20 de julho de 2010 – 41 anos que o homem pisou na lua.

A conquista da lua: O "Acordo que regula as atividades dos estados na lua e outros corpos celestes" estabelece que "a superfície e o subsolo da lua não serão propriedades de nenhum estado, organização ou pessoa". Os Estados Unidos não assinaram este tratado universal. Humildemente sugiro que esclareça suas intenções. Que torne pública a verdade, mediante uma declaração escrita de quem saiba e possa, sem acrescentar dúvidas a dúvidas: os Estados Unidos querem a lua para que lá possam reunir-se aqueles que aqui já não têm lugar. Refiro-me aos organismos internacionais que velam pela felicidade de um mundo que já não os quer. Parece uma sopa de letrinhas, mas se trata nada menos do que o FMI, BM, OMC, OTAN, UE, G-7 e G-8. Eles tentaram em Seattle, Washington, Los Angeles, Filadélfia, Praga, Quebec, Gotemburgo e Gênova, e a fúria dos vândalos lhes tornou impossível a tertúlia. Na lua, não ouvirão ruídos impertinentes e o US Space Command lhes garantirá proteção invulnerável contra as ameaças das hordas de Átila. E aqui cessa minha arenga. São Jorge está muito atarefado em sua guerra solitária contra o dragão da inveja; e não se deve roubar seu tempo. (O TEATRO DO BEM E DO MAL, Eduardo Galeano-2001)

Lua, lua, lua, lua
Por um momento meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver c
om a lua (Caetano Veloso)

"Não venha a lua de Armstrong

pisada, apalpada

Analisada em fragmentos pelos geólogos.” (Drummond)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Manter a lucidez é um ato revolucionário!

"É sempre uma lástima, humanamente penosa, perder oportunidades históricas. Mas, do que tem sido feita a crônica da esquerda no Brasil? Ou é mais justo perguntar no mundo? Quando a esquerda não rasga horizontes, nem infunde esperanças, a direita ocupa o espaço e draga as perspectivas: é então que a barbárie se transforma em tragédia cotidiana". J. Chasin


 

José Chasin, filósofo, autor de A Miséria Brasileira, faleceu em 1998. Sustentava que a grande derrota sofrida pela esquerda em 1964 poderia ter aberto uma oportunidade histórica de autocrítica e de renascimento de uma nova esquerda. A construção de um movimento de idéias passa a ser sua grande perspectiva: "Manter a lucidez é um ato revolucionário"!


 

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sobre vídeo de soldado americano postado abaixo

Recebi esse vídeo (no post abaixo) hoje e resolvi compartilhá-lo com vocês. Trata-se de um discurso de um jovem norte americano, veterano da guerra do Iraque, expondo com clareza as reais motivações daquela – e de qualquer guerra impetrada pelos Esatdos Unidos: “Eles sabem que a riqueza deles depende da habilidade de convencer a classe operária a morrer para controlar o mercado de outro país. (...)Pessoas pobres e trabalhadoras desse país são mandadas para matar pessoas pobres e trabalhadoras de outro país, e fazer os ricos mais ricos.”

Essa motivação foi a mesma que, na guerra contra o comunismo, fez dos EUA o principal aliado no processo de golpe de Estado e ditadura militar aqui em Terra Brasililis, assim como em toda América Latina... E o soldado prossegue: “Sem o racismo, os soldados perceberiam que têm muito mais em comum com o povo do Iraque (ou qualquer outro), do que com os milionários que nos mandam para a guerra. (...) O inimigo é um sistema que declara guerra quando é lucrativo,o inimigo é uma corporação que nos despede de nosso trabalho quando é lucrativo, é uma companhia de seguros que nos nega assistência quando é lucrativo, é o banco que toma nossas casas quando é lucrativo.”

As informações que rolam na grande rede dizem que dois dias depois desse discurso o soldado estava morto... Por morte morrida ou morte matada... Mas aí são boatos cuja procedência não tenho certeza... Mas vale a análise.

Discurso de soldado americano

sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago



A José Saramago, protagonista de várias polêmicas, meu aplauso por sua existência e suas palavras eternas.

Como disse Luiz Schwarcz, editor de José Saramago no Brasil.

"Nem sua vida nem sua morte cabem numa frase"

Evoé, José Saramago !!!



(
na foto, José Saramago pelas lentes do fotógrafo Sebastião Salgado)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Capitalismo: Uma História de Amor

Capitalismo: Uma História de Amor, o último documentário de Michael Moore, é imperdível, descreve, nas palavras do autor, “o maior roubo da história dos EUA”: a transferência de dinheiro dos contribuintes para instituições financeiras privadas. Moore, como em seus outros filmes não é um narrador neutro, com humor e coragem nos conduz na jornada em que explora a pergunta: Qual o preço que a América tem de pagar pelo seu amor ao capitalismo? E graças a esse amor o “sonho americano” transformou-se em pesadelo: um povo manipulado, desinteressado, dependente e cada vez mais miserável por confiar num sistema baseado na caça ao lucro. O filme teve uma passagem relâmpago pelos cinemas brasileiros, mas está disponível na rede. Divirtam-se.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Como a imprensa americana noticiou, em 1964, os acontecimentos no Brasil

"UM GOLPE SEM SANGUE QUE SALVOU O PAÍS"

A imprensa americana deu apoio quase unânime ao reconhecimento que o governo Lyndon Johnson concedeu ao novo governo militar brasileiro e à agenda anticomunista dos líderes golpistas. As reportagens praticamente ignoraram as prisões em massa; e classificaram a mudança de governo como "golpe sem sangue" que evitou uma guerra civil.

O artigo da revista Reader's Digest (Seleções) traçava um retrato extremamente negativo dos anos Goulart, carregado da retórica anticomunista que marcou a Guerra Fria e com extensos elogios aos militares.

Título do artigo: "O país que se salvou".

Um anúncio de página inteira informava aos leitores "como usar este artigo". Dizia:

"O país que se salvou contém informação útil e vital para qualquer nação ameaçada pela subversão comunista. A mensagem é essa: com determinação e planejamento inteligente, uma cidadania rebelada pode se livrar da mais profunda ameaça comunista. Se você quiser ajudar a espalhar essa importante mensagem, aqui está o que você pode fazer" - e os leitores eram encorajados a mandar esse texto pelo correio a amigos no exterior ou que vivessem "em áreas sensíveis de novos países em desenvolvimento ou em países mais antigos que enfrentam a ameaça comunista". Os interessados podiam obter cópias (cinco por $ 35 cents., cinqüenta por U$ 3 e cem por U$ 5) para mandar "a parentes ou amigos que trabalham no estrangeiro, tais como integrantes do Peace Corps, professores. médicos, missionários etc." Seleções também sugeria a quem viajasse que levasse cópias do artigo.

Artigo da Coleção Caros Amigos: a ditadura militar no Brasil, pág 21


sexta-feira, 21 de maio de 2010

O que resta da ditadura

A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em
que vivemos é na verdade regra geral. Precisamos construir um
conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento,
perceberemos que nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência.
Walter Benjamin

"A ditadura militar brasileira encontrou uma maneira insidiosa de se manter, de permanecer em nossa estrutura jurídica, nas práticas políticas, na violência cotidiana, em nossos traumas sociais. (...)Ao mesmo tempo que se nega seu alcance e se minimiza seu legado autoritário, a exceção brasileira indica as circunstâncias que permitiram certa continuidade da ditadura brasileira. O fato é que a ditadura não está somente lá onde o imaginário da memória coletiva parece tê-la colocado. Mais ainda: sua permanência não é mais simples presentificação daquilo que já foi, do passado de repressão, mas reaparece hoje nas práticas institucionais." (Aba do livro "O que resta da ditadura", orgs Edson Teles e Vladimir Safatle)

domingo, 9 de maio de 2010

NINGUÉM SEGURA ESTE PAÍS

O “otimismo” no início da década de 70 foi engendrado por uma grande campanha divulgada pela TV, através de comerciais que o governo do general Emílio Garrastazu Médici veiculava, reforçando a atmosfera de satisfação com o Golpe de 64 e seus desdobramentos. Nos anos 70 começou a transmissão televisiva em rede nacional e nessa época chegou também ao Brasil a TV em cores.

O governo criou uma Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) e para dirigi-la nomeou o coronel Octávio Costa (um apreciador de poesia), que foi o responsável pela produção destes comerciais que consolidavam as mensagens de confiança no governo - não subestimando para o êxito desse objetivo os préstimos de produtores das empresas privadas.

Estes comerciais falavam de coisas simples e mostravam o Brasil entrando em uma nova fase, de muita prosperidade, o que haveria de torná-lo - certamente - uma grande potência, apresentavam gente feliz, crianças, jovens e idosos de todas as raças, vivendo num país de alegria e fartura, e terminavam com uma frase curta, tipo: "Este é um país que vai pra frente", "O Brasil merece o nosso amor", “Brasil ame-o ou deixe-o”.

Na ditadura militar, vivíamos "bons tempos" (esqueçam a repressão, as prisões, a violência contra a oposição, a tortura, o arrocho salarial, a inflação, o desmanche da escola pública, etc, etc…). A censura, em vigor desde a promulgação do AI-5, proibia quaisquer outros meios de comunicação em tocar nesses assuntos. Só sobrava a imagem da propaganda política do governo.

"Povo desenvolvido é povo limpo", dizia uma campanha pela limpeza das cidades liderada por Sujismundo, um personagem que jogava lixo nas calçadas e sujava tudo, mas que tinha a aparência simpática de quem erra não por maldade, mas por ignorância. Os mandatários naquele Brasil viam os brasileiros assim: um povo despreparado, que não sabia se comportar, que devia ser educado para ter o privilégio de viver no novo país que eles estavam produzindo.

A possibilidade desse novo Brasil criava um clima de euforia e satisfação nas pessoas, especialmente na classe média que vinha conseguindo alguns benefícios com o regime militar. E, assim, consolidava-se a informação de que o Golpe de 64 tinha sido mesmo a melhor solução. Esse otimismo foi fortalecido ainda mais com a vitória da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1970, a primeira tricampeã mundial. E aí a dita cuja afirmou: "Ninguém segura este país”.

...texto inspirado pelo capítulo "Futebol, TV e propaganda política", publicado no livro O regime militar no Brasil (1964-1985), de Carlos Fico

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Manifesto de João Vicente Goulart proferido no Memorial da Resistência - São Paulo 13/03/10

trecho do Manifesto de João Vicente Goulart proferido no Memorial da Resistência - São Paulo 13/03/10

"Nesta solenidade sobre a resistência, a contribuição que a família Goulart pode oferecer - é suscitar o debate de que está na hora de admitir que o BRASIL perdeu a Guerra Fria. Após 40 anos da perda da nossa soberania, podemos encerrar a controvérsia, pois com a desclassificação dos documentos secretos norte-americanos estão definitivamente comprovados o patrocínio estrangeiro do golpe militar e o tamanho da farsa orquestrada em 01 de abril de 1964. (...) Jango não teve como evitar a derrota de nosso país, mas é o maior responsável pela integridade nacional que ainda perdura!

Sim, o objetivo estratégico do golpe de 01 de abril de 1964 era uma guerra civil que inviabilizasse o nascimento de uma nova potência mundial no hemisfério Sul do planeta. Esta era a previsão da CIA e mais uma etapa da guerra fechada promovida contra o nosso país desde 1945. (...) Era a morte certa da 4ª. potência mundial.
 (...)
O Brasil de hoje precisa entender a extensão da derrota que sofremos. Como aconteceu a perda de nossa autodeterminação e de nossa vontade soberana? Precisa entender que nossa submissão à potência hegemônica foi resultante de uma estratégia de Guerra.
(...)
O verdadeiro resgate da soberania nacional começa com o desagravo e o reconhecimento públicos do valor da resistência pacífica de Jango contra a insurreição militar dos traidores de nossa pátria que preservou a integridade nacional.

Acreditar que não podemos mudar nosso país e que precisamos nos conformar com a situação é obedecer à psicologia de massa usada como amortecedor pelas forças que atuam para impedir o exercício de nossa soberania!

Acreditamos que, neste momento, a defesa da soberania do Brasil precisa obedecer aos princípios consagrados pela política de Estado de Jango: Resistência Pacífica, Legalidade, Diálogo, Democracia e Justiça Social!"

~~João Vicente Goulart

Golpe de 64

O vídeo a seguir resume pontos significativos da Ditadura no Brasil.

A Ditadura Militar(golpe de 64)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

General Newton Cruz fala de bastidores do Regime Militar

O vídeo a seguir é do "DOSSIÊ GLOBONEWS" - dividido em 5 partes

(exibido em abril de 2010)

A entrevista é com o General Newton Cruz, o mais polêmico dos generais do período da ditadura militar no Brasil. Considerado da "linha dura" do Exército. Newton Cruz foi chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informação, o famoso SNI, em Brasília, durante seis anos, de 1977 a 1983. Nesse posto, virou guardião de segredos sobre os bastidores do poder. Ele ganhou fama de "linha dura" quando ocupou um posto importante, o Comando Militar do Planalto. Coube a ele executar as medidas de emergência baixadas pelo governo militar para evitar manifestações públicas em Brasília, durante votações importantes no Congresso Nacional.
Nessa entrevista ao DOSSIÊ GLOBONEWS, o General Newton Cruz quebrou o silêncio que vem mantendo nos últimos anos para falar de um dos segredos que guarda: militares estariam preparando um novo atentado igual ao que seria cometido no Rio-Centro em abril de 1981. Quando soube do plano, Newton Cruz viajou de Brasília ao Rio de Janeiro e, numa reunião secreta, num quarto de hotel, no bairro do Leme, ele teve um diálogo duro com os militares envolvidos na operação, dissuadindo-os da ideia.

Hoje, aos 85 anos, Newton Cruz está viúvo e mora com sua filha em um apartamento na zona oeste do Rio de Janeiro.

DOSSIÊ GLOBONEWS - NEWTON CRUZ - 1/5

DOSSIÊ GLOBONEWS - NEWTON CRUZ - 2/5

DOSSIÊ GLOBONEWS - NEWTON CRUZ - 3/5

DOSSIÊ GLOBONEWS - NEWTON CRUZ - 4/5

DOSSIÊ GLOBONEWS - NEWTON CRUZ - 5/5

Definição de GERAÇÃO para o ambiente corporativo - baseada em modelo norte americano

Conheça as gerações (Veteranos, Boomers, X e Y)

Retirado da Revista HSM Management 70 setembro - outubro 2008

Pela primeira vez na história corporativa, há quatro gerações compartilhando um mesmo espaço. Quando os funcionários de mais idade eram os chefes e os executivos mais jovens faziam o que lhes mandavam fazer, não se questionava o que dizia a diretoria, eram as regras. Agora, porém, as normas são reescritas diariamente. Veja abaixo algumas diferenças entre as gerações:

Veteranos ou Seniores (nascidos antes de 1946), boomers (nascidos entre 1946 e 1964), geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e geração Y, também chamada de geração do milênio ou Facebook (nascidos de 1980 para cá).

Feedback:
- Os Y esperam feedback de todos no local de trabalho.
- A geração X prefere que não intervenham em seu trabalho.
- Os boomers tendem ao formalismo da avaliação anual.
- Os veteranos podem ser descritos com uma frase: "Se não há nenhuma notícia, é boa notícia".

Expectativas com relação ao trabalho e valores
- A geração Y é expert no uso da tecnologia. Influenciada pela web 2.0 (wikis, blogs e redes sociais), mantém fortes laços com suas comunidades, que são, em geral, virtuais. Seus membros são pragmáticos e irreverentes. Seus representantes desejam trabalhos "com sentido" e ambientes propícios à colaboração. Querem ter controle econômico de sua vida e são determinados na defesa do equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
- Os que pertencem à geração X se definem, mais que qualquer outra coisa, pela mídia e pela tecnologia. Querem passar mais tempo com os filhos e, por essa razão, trabalhar menos. São céticos e individualistas. Apreciam a informalidade e a autoridade proveniente do mérito.
- Os boomers respeitam as hierarquias, são competitivos, idealistas e ambiciosos. Não vêem o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional com fator decisivo.
- Os veteranos veneram a disciplina e a cadeia de comando. São conservadores e esperam uma relação de longo prazo com as empresas.

sábado, 1 de maio de 2010

1º de maio: dia do Trabalho ou do Trabalhador?

"Como explicar que hoje três quartos da humanidade estejam afundando no estado de calamidade e miséria somente porque o sistema social de trabalho não precisa mais de seu trabalho?

Trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, cultivarão hortas, farão música etc.

A história da modernidade é a história da imposição do trabalho que deixou seu rastro amplo de devastação e horror em todo o planeta.

'Afastai os ociosos', dizia o Hino Internacional do Trabalho – e 'o trabalho liberta' ecoava aterrorizantemente sobre os portões de Auschwitz.

Se o rei Midas ao menos ainda vivenciava como maldição o fato de que tudo em que tocava virava ouro, o seu companheiro de sofrimento moderno já ultrapassou esse estado. O homem do trabalho nem nota mais que, pela adaptação ao padrão do trabalho, cada atividade perde sua qualidade sensível específica e torna-se indiferente. Ao contrário, ele dá sentido, razão de existência e significado social a alguma atividade somente através desta adaptação à indiferença do mundo da mercadoria. Até mesmo sonhar torna-se 'trabalho de sonho', o conflito com a pessoa amada torna-se 'trabalho de relação' e o trato de crianças é desrealizado e indiferenciado como 'trabalho de educação'. Sempre que o homem moderno insiste em fazer algo com seriedade, tem na ponta da língua a palavra trabalho."


Fragmentos do Manifesto Contra o Trabalho, jun/2001, grupo Krisis (Robert Kurz)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Salve, Jorge!

Padroeiro do Brasil

Em toda casa tem um quadro de São Jorge
Em toda casa onde o santo é protetor
Num barracão, num bangalô de gente nobre
Há sempre um quadro desse santo Salvador
Quem é devoto é só fazer uma oração
Que o guerreiro sempre atende
Dando a sua proteção
Por isso mesmo não devemos esquecer
A grande data dia 23 de Abril
Vamos cantar com alegria e prazer
Porque São Jorge é o padroeiro do Brasil

(canção de Ary Monteiro e Irany de Oliveira, interpretada por Bethânia no CD Brasileirinho)


Glauber Rocha, sobre o seu filme "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" -1969: "O Dragão é inicialmente Antonio das Mortes, assim como São Jorge é o cangaceiro. Depois, o verdadeiro dragão é o latifundiário, enquanto o Santo Guerreiro passa a ser o professor quando pega as armas do cangaceiro e de Antonio das Mortes. Em suma, queria dizer que tais papéis sociais não são eternos e imóveis, e que tais componentes de agrupamentos sociais solidamente conservadores, ou reacionários, ou cúmplices do poder, podem mudar e contribuir para mudar. Basta que entendam onde está o verdadeiro dragão."

quinta-feira, 22 de abril de 2010

22 de abril – A “descoberta”

Oficialmente considera-se que apenas com a chegada da esquadra de Cabral teve início o processo histórico nas terras que hoje chamamos Brasil, desconsiderando os habitantes nativos. E foi assim que aquilo deu nisso…

História do Brasil (marcha/carnaval)

Composição: Lamartine Babo - 1934

Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral!
Foi seu Cabral!

No dia vinte e um de abril
Dois meses depois do carnaval

Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som...
Ao som do Guarani!

Do Guarani ao guaraná
Surgiu a feijoada
E mais tarde o Paraty

Depois
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô

De lá...
Pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo da vovó
Quem manda é a Severa
E o cavalo Mossoró


Não entendi por que Lamartine Babo contemplou 21 de abril como sendo "a data", será que foi pela métrica, será que é porque tanto faz, ou isto é lá com Santo Antônio…

21 de abril – dia de Tiradentes, dia da Polícia Militar, dia do Café, dia do Metalúrgico, dia da morte do Tancredo, dia de Brasília (a capital da esperança)… (?)

A Implosão da Mentira


Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.


"É estimulante pensar que o passado vai se modificar. Em geral pensamos que o futuro é que está sujeito a alterações. Não. O passado também é uma reinvenção. Dependendo do que se determina no passado, altera-se o presente."

Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mafalda

História em quadrinho quando é boa...

Lá pelos anos 60/70 Mafalda era uma delícia... Um oásis em meio a devastação da ditadura.
Mafalda, uma menina preocupada com a humanidade e a paz mundial, que se rebela com o que torna o mundo sombrio, apareceu pela primeira vez em 29 de setembro de 1964 e circulou o mundo até 1973, usufruindo de uma altíssima popularidade no Brasil.
Eram tiras de histórias em quadrinhos escritas e desenhadas pelo cartunista argentino Quino.
Quino, para manifestar seu descontentamento com a ditadura, utilizou-se de um recurso: Mafalda odeia sopa. Todos os dias que sua mãe insiste em lhe servir sopa Mafalda fica indignada. A sopa, segundo o cartunista, era “uma metáfora do autoritarismo militar”, assunto que não permitia abordagens muito diretas.
Suas 1928 tiras já foram publicadas em mais de 20 idiomas e muitas ainda saem em alguns jornais do mundo.